segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sibilar noturno diário

Dentre luzes anoitecidas vou.
És profundo, negro universo céu
Que retém azedumes sob véu
Entranhas carcomidas neste estou.


Sincrônico eixo é a questão: quem sou?
Explosão do novo afora em troféu
Implosão dor que me faz menestrel
A sanar vazios que ela deixou.


Insuficientes insônias por vir
Prelúdio ressoando notas de corte
Corpóreo, concreto, cancro partir.


Dissimulação é arte do forte
Fragilidade sincera é assumir 
Que não sei em VIda aceitar sua morte.


14/11/2011

domingo, 2 de outubro de 2011

A despedida


‎"Gosto quando olho com você o mundo/Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você"... Dentre tantas, uma delas... Canções que me destinava, prazeres que me dedicava... Pois hoje pude apenas olhar o memorável mar-vida nosso de cada dia misturado à contraditória marca material de morte-Vivian. Na confrontada simbiose instaurada, meu olhar solitário fez-se onda, inundei-me de todo o cinza. Neste seu inevitável retorno à natureza, desejei que sua alma tivesse a mesma idade que a idade do céu e, assim, continuar olhando o mundo contendo você. O lugar-comum é aqui dentro, em encontros e despedidas eternas. Muito amor por hoje... Sigo, enfim, com nossa história enraizada em minha natureza. Vibra meu corpo suas energias e the show must go on...
"Some things in life may change
But some things they stay the same
Like time
There's always time
On my mind
So pass me by
I'll be fine
Just give me time"
http://www.youtube.com/watch?v=_ogVor9uZoo&feature=related

domingo, 11 de setembro de 2011

Falta de ar...

"Eu fui uma briga de amor com o mundo"
 (Robert Frost)

Uma vez mais, lugar incomum este o da solidão em que me encontro, ao qual pertenço nos últimos dias. No hospital, acompanhando o processo de morte de minha irmã, tenho pensado e sentido milhares de coisas. É o exaurir  de forças, a sucção irrefreável de impressões e sensações deste eterno terno ser admirável que padece a cada minuto.


Então, despede-te, mundo! Faz valer esta história, busca o que ocorreu de mais precioso no passado, agarra-te em lembranças. O que vem pela frente é difícil, lamentável. A ausência de minha irmã significa a afirmação de uma solidão jamais sentida.


Fomos criadas para sermos amigas, confidentes. A frase que soava das vozes supremas era "Quando papai e mamãe forem embora, vocês terão uma a outra"... Meu misterioso e covarde destino, por que inverteste a ordem? Por que me tiras esta companheira de vida tão precocemente? Torno-me Quixote sem meu Sancho. Quem me trará à realidade de minhas aventuras? Quem me abrirá os olhos e me fará perceber que aquele imenso gigante não passava de um moinho? Só, só...


Vejo teu corpo, tuas veias, teu coração e respiração; tudo agindo tão lentamente agora. Teu olhar é longínquo, não mais penetrante, altivo e atento como costumava ser. Tua voz tende ao silêncio, com a rouquidão de tua alma em espera, em processo. Fecho os olhos. Posso detalhar teu corpo, tuas pintas, gestos e expressões. Ouço tua voz. Oh, sim, sinto teu cheiro, o amor no teu abraço... Com fervor brindo teu ódio, presente no olhar de quem apenas lutava pela vida em vida. Vida alheia, vida tua.


Vida minha? Tudo mudo. Vida muda...


À Vivian Pisaneschi Cruz
(27 de outubro de 1982 - 24 de agosto de 2011)

Historinha antes de dormir...

Era uma vez, uma garotinha muito calma, meiga, sensível, um anjo de candura, que vivia numa cidade encantada, à beira-mar, onde conversava, envolta em suas finas sedas, com peixinhos, golfinhos e passarinhos, num cotidiano ameno de nuvens algodão-doce no celeste azul do céu.       


Chamava-se Vitória, uma alusão de seus pais à beleza daquela, a régia, que flutua sobre as plácidas águas doces...


Um dia, numa aleatória e simples conversa com os seres inanimados de seu mundo, teve a ideia brilhante de convidar um velho amiguinho, de uma terra muito muito distante, a participar de uma festa que haveria em seu quintal.


O garotinho em questão, Sequoio, entretido em sua célebre resistência a pairar assonante no paraíso, revestido de sua negação inveterada a levemente se entregar aos copos cósmicos fermentados de mel, não aceitou o convite da nobre criatura que lhe clamava a ilustre presença.


Vitória, então, decidida a cortar um mal pela raiz, abre o baú da perdição, já empoeirado no sótão, e retira dali, depois de ter-se deparado com uma infinidade de códigos mágicos e combinações secretas, o punhal milenar da desgraça. Reluzia em suas mãos o aparato, grande e afiado, entrando-lhe nas pupilas o cintilar de uma promissora vingança.


Neste momento, a doce garota despertava sentimentos adormecidos que nunca antes sentira: ira, ódio, rubros maus de alma. Bem diziam os antepassados que, ao tocar no referido punhal, qualquer ser encantado estaria tentado a usá-lo em prol do demoníaco.
Vitória levou sua descoberta ao quarto e fitou-a atentamente a noite inteira, planejando mil maneiras de perseverar em sua magistral tarefa de transformar Sequoio em seiva bruta.


Já não era mais a mesma, seus olhos rutilavam a vermelhidão do sangue roubado do corpo, que empalidecia, para concentrar no cérebro soberano a enorme missão.


O mundo girava e qualquer possiblidade do encantamento natural, de nobres sentimentos, era refreada pelo poder demoníaco que o punhal lhe exercia.


Na tarde seguinte, Vitória recebeu uma visita inesperada do garotinho Sequoio, que lhe insistia o perdão por sua ausência. A garota dissimulou complacência. Conversaram durante algumas horas sobre diversos assuntos, aos quais não dava mais importância alguma, absorvida pelo grande infortúnio que agora era capaz de produzir.


Ao despedir-se, Vitória deu-lhe um forte abraço, afagou-lhe os cabelos com a mão esquerda, olhou-o fixamente e disse:


- Este é o resultado de seus brios!


De sua mão direita lançava, no mesmo instante, a arma despudorada, que invadiu-lhe o esterno e atingiu-lhe o coração.


As únicas águas sob Régia eram agora espessas poças sanguinolentas do frescor da morte de Sequoio. O mesmo frescor sentido por ela na manhã seguinte, em seu cotidiano ameno de nuvens algodão-doce no celeste azul do céu...

(29/07/2011) Dedicado ao amigo R. Madeira.

Café da manhã

           

Salvador Dalí. MESA. 1904.
               Hoje...
              Um começo de novembro de um fim de ano tortuoso. Talvez o mais pesado dos anos. Fui absorvida, minha energia sugada por todos os lados. É difícil encontrar sabores em mim. O deliciar do outro de meus doces, de meus salgados, amargos ou cítricos me leva ao que me transformei. Insossa!
                A crueldade emocional veio de todos os lados, mesmo que eu fizesse força pra que não me encontrasse, ainda que evitasse qualquer manifestação nova de sentidos. Foi inevitável.
Os conflitos dos que me rodeiam são sempre suas justificativas plausíveis e egocêntricas para o meu esvaziamento constante. Sim... Minha compreensão abre todas as portas para a indulgência alheia.
                Optar pelo mais fácil... Não se importar com o que sinto. Porque minha complacência permite que o outro encontre o lugar seguro da incontinência.
                Pergunto-me, todas as noites, até onde isso tudo poderá chegar? Quantas migalhas de mim serão refeitas? Antes disso, por que o mundo me reduz a elas? Sou o pão mais fresco do café da manhã. O cheiroso e quente pão fresco do derretimento de sua margarina! Derrame-a! Deleite-se em meus miolos... Porque tenho a habilidade de deixá-lo extremamente confortável aqui dentro.
                Está bem... Recolho os lixos que deixou na mesa. Quem cumpriria melhor a nobre tarefa do que eu? É assim que vocês pensam... Esse conforto da irresponsabilidade comedida lhes cabe. É grandioso em detrimento de minhas energias... O mundo aposta em que sejam inesgotáveis. Talvez um dia eu tenha acreditado nisso também.
                Mas, olhem para mim, meus caros! Estou aqui, insossa! Manca, torpe nos vagarosos próximos passos.
                A crueldade emocional está estampada! Enxerguemos, assumamos!
                Questão primeira de polidez: perguntem-se, às vezes, se estou bem hoje!


                                               (01/11/2010)

Dê-me uma flor cinza

      
           Sozinha, de volta ao jardim mais lindo que já vi na vida, onde experimentei a maior sensação de cores, formas e tamanhos de flores, vi-me atônita, surpresa...Onde estavam as belas cores? Cadê toda aquela beleza?
A agonia era tamanha ao deparar-me agora apenas com brancas e pretas. Correu-me o desespero pelo corpo. O vazio da mudança completa, de não reconhecer mais o que era, de não existir mais a energia de um antigo colorido.
Uma voz de repente surgiu, como uma música angelical, como um sopro de esperança. Era doce, e pude perceber, depois de alguns suaves segundos, que quem me chamava era uma criança. Dizia:
- Vejo flores azuis, vermelhas, roxas, amarelas, quase todas as cores, todas tão bonitas! A verdade de seus olhos já não pode ser mais essa, senhorita. Não enxerga mais como eu.
Eu, extremamente entregue ao discurso infantil e espontâneo daquele pequeno ser, tomei-o em meus braços e, caminhando, indaguei com minha trêmula voz:
- E por que, meu querido anjo? Por que não vejo as mesmas cores que você?
- A senhorita não sabe o que o branco e o preto significam? Procure entender bem o que explicarei agora...
- Vamos, meu anjo, explique sem demora!
- O branco é o reflexo de todas as cores; o preto, o de nenhuma delas. A senhorita não teve essa aula na escola?
Ri, então, embriagada pela esperteza do pequeno anjo. Deliciada pela irreverência da situação. Mas, ainda perplexa pela diferença de nossos olhares, indignada por não enxergar as mesmas flores azuis, vermelhas, roxas, amarelas...
Percebendo a aflição em que me encontrava, o pequenino logo continuou:
- Hoje a senhorita é assim: ou enxerga todas as cores juntas, ou nenhuma delas.
A única iniciativa de minhas pernas neste momento foi paralisar meus movimentos. Precisava mesmo parar e refletir sobre as cores de minha vida. Enquanto o garoto desceu do meu colo e saiu correndo dentre as flores, cantando canções de uma infância querida.
Olhando tudo aquilo, concentrei-me nas últimas palavras do menino. Sentei-me diante daquela brancura e negrura sem graça, a fim de encontrar sentido, experimentar a sensação da intensidade dessa explosão contida de cores. Toquei-as, cheirei-as, passei tulipas, jasmins e rosas brancas e negras pelo meu corpo.
No ápice de meu encontro com o jardim recém-nascido, abri os olhos e, como se este fosse o dia das melhores surpresas, vi, bem junto a mim, a mais estranhas das flores, porém a mais bela... Uma flor grande e viva. Uma robusta flor cinza.
O meu anjo já estava longe e gritei para que ele retornasse.
Ao chegar perto de mim, mostrei-lhe a aberração e pedi explicação:
- O que isso significa, meu querido?
Ele, lindamente irritado, como é natural de toda criança ao ser interrompida, disse-me, brevemente, antes de sumir em meio àquela flora:
- Ah, senhorita, finalmente encontrou o equilíbrio!
Desde então, das flores brancas e negras que encontro no caminho, sempre procuro a cinza mais próxima.


Valéria Pisaneschi Cruz 08/09/2008