domingo, 11 de setembro de 2011

Historinha antes de dormir...

Era uma vez, uma garotinha muito calma, meiga, sensível, um anjo de candura, que vivia numa cidade encantada, à beira-mar, onde conversava, envolta em suas finas sedas, com peixinhos, golfinhos e passarinhos, num cotidiano ameno de nuvens algodão-doce no celeste azul do céu.       


Chamava-se Vitória, uma alusão de seus pais à beleza daquela, a régia, que flutua sobre as plácidas águas doces...


Um dia, numa aleatória e simples conversa com os seres inanimados de seu mundo, teve a ideia brilhante de convidar um velho amiguinho, de uma terra muito muito distante, a participar de uma festa que haveria em seu quintal.


O garotinho em questão, Sequoio, entretido em sua célebre resistência a pairar assonante no paraíso, revestido de sua negação inveterada a levemente se entregar aos copos cósmicos fermentados de mel, não aceitou o convite da nobre criatura que lhe clamava a ilustre presença.


Vitória, então, decidida a cortar um mal pela raiz, abre o baú da perdição, já empoeirado no sótão, e retira dali, depois de ter-se deparado com uma infinidade de códigos mágicos e combinações secretas, o punhal milenar da desgraça. Reluzia em suas mãos o aparato, grande e afiado, entrando-lhe nas pupilas o cintilar de uma promissora vingança.


Neste momento, a doce garota despertava sentimentos adormecidos que nunca antes sentira: ira, ódio, rubros maus de alma. Bem diziam os antepassados que, ao tocar no referido punhal, qualquer ser encantado estaria tentado a usá-lo em prol do demoníaco.
Vitória levou sua descoberta ao quarto e fitou-a atentamente a noite inteira, planejando mil maneiras de perseverar em sua magistral tarefa de transformar Sequoio em seiva bruta.


Já não era mais a mesma, seus olhos rutilavam a vermelhidão do sangue roubado do corpo, que empalidecia, para concentrar no cérebro soberano a enorme missão.


O mundo girava e qualquer possiblidade do encantamento natural, de nobres sentimentos, era refreada pelo poder demoníaco que o punhal lhe exercia.


Na tarde seguinte, Vitória recebeu uma visita inesperada do garotinho Sequoio, que lhe insistia o perdão por sua ausência. A garota dissimulou complacência. Conversaram durante algumas horas sobre diversos assuntos, aos quais não dava mais importância alguma, absorvida pelo grande infortúnio que agora era capaz de produzir.


Ao despedir-se, Vitória deu-lhe um forte abraço, afagou-lhe os cabelos com a mão esquerda, olhou-o fixamente e disse:


- Este é o resultado de seus brios!


De sua mão direita lançava, no mesmo instante, a arma despudorada, que invadiu-lhe o esterno e atingiu-lhe o coração.


As únicas águas sob Régia eram agora espessas poças sanguinolentas do frescor da morte de Sequoio. O mesmo frescor sentido por ela na manhã seguinte, em seu cotidiano ameno de nuvens algodão-doce no celeste azul do céu...

(29/07/2011) Dedicado ao amigo R. Madeira.

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