terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Oscar

O voo mais alto, preciso e exuberante,
De asas a despenarem em cansaço,
teve sempre rumo e destino certos.
Fui pássaro a rodear ansioso o instante
da terna aterrizagem no seu abraço.
(28-01-2014)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Corpus diluvium




Catástrofe nisto?
Corpo em grito.
Limpeza com creolina
em plácido e doce silêncio 
de postos de gasolina.

Alma não reabastece?
Energia se esmorece.
Vence o louco único
Em torrencial  infinito...
Rebento-me em transporte público!

(Risos)

... And the show must go on! :)





política do pé atrás


Lamento olhar a ruína que se perfaz
Perfeita em cegueira comedida.
Atar-se desejo assim, sem mais.
Lúgubre estancar rubro de ferida.

Ações milimétricas, cartas marcadas...
Jogos sem cor, sem dor, sem alma.
Pueris inocência e parvoíce almejadas,
gritando em peito vívido: - Calma!

Eis, então, os destemidos adultos:
O quase prazer de sentidos invertidos.
Sonhos espontâneos são insultos;
cálculo, razão e controle, divertidos. 

(02/07/2012)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sibilar noturno diário

Dentre luzes anoitecidas vou.
És profundo, negro universo céu
Que retém azedumes sob véu
Entranhas carcomidas neste estou.


Sincrônico eixo é a questão: quem sou?
Explosão do novo afora em troféu
Implosão dor que me faz menestrel
A sanar vazios que ela deixou.


Insuficientes insônias por vir
Prelúdio ressoando notas de corte
Corpóreo, concreto, cancro partir.


Dissimulação é arte do forte
Fragilidade sincera é assumir 
Que não sei em VIda aceitar sua morte.


14/11/2011

domingo, 2 de outubro de 2011

A despedida


‎"Gosto quando olho com você o mundo/Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você"... Dentre tantas, uma delas... Canções que me destinava, prazeres que me dedicava... Pois hoje pude apenas olhar o memorável mar-vida nosso de cada dia misturado à contraditória marca material de morte-Vivian. Na confrontada simbiose instaurada, meu olhar solitário fez-se onda, inundei-me de todo o cinza. Neste seu inevitável retorno à natureza, desejei que sua alma tivesse a mesma idade que a idade do céu e, assim, continuar olhando o mundo contendo você. O lugar-comum é aqui dentro, em encontros e despedidas eternas. Muito amor por hoje... Sigo, enfim, com nossa história enraizada em minha natureza. Vibra meu corpo suas energias e the show must go on...
"Some things in life may change
But some things they stay the same
Like time
There's always time
On my mind
So pass me by
I'll be fine
Just give me time"
http://www.youtube.com/watch?v=_ogVor9uZoo&feature=related

domingo, 11 de setembro de 2011

Falta de ar...

"Eu fui uma briga de amor com o mundo"
 (Robert Frost)

Uma vez mais, lugar incomum este o da solidão em que me encontro, ao qual pertenço nos últimos dias. No hospital, acompanhando o processo de morte de minha irmã, tenho pensado e sentido milhares de coisas. É o exaurir  de forças, a sucção irrefreável de impressões e sensações deste eterno terno ser admirável que padece a cada minuto.


Então, despede-te, mundo! Faz valer esta história, busca o que ocorreu de mais precioso no passado, agarra-te em lembranças. O que vem pela frente é difícil, lamentável. A ausência de minha irmã significa a afirmação de uma solidão jamais sentida.


Fomos criadas para sermos amigas, confidentes. A frase que soava das vozes supremas era "Quando papai e mamãe forem embora, vocês terão uma a outra"... Meu misterioso e covarde destino, por que inverteste a ordem? Por que me tiras esta companheira de vida tão precocemente? Torno-me Quixote sem meu Sancho. Quem me trará à realidade de minhas aventuras? Quem me abrirá os olhos e me fará perceber que aquele imenso gigante não passava de um moinho? Só, só...


Vejo teu corpo, tuas veias, teu coração e respiração; tudo agindo tão lentamente agora. Teu olhar é longínquo, não mais penetrante, altivo e atento como costumava ser. Tua voz tende ao silêncio, com a rouquidão de tua alma em espera, em processo. Fecho os olhos. Posso detalhar teu corpo, tuas pintas, gestos e expressões. Ouço tua voz. Oh, sim, sinto teu cheiro, o amor no teu abraço... Com fervor brindo teu ódio, presente no olhar de quem apenas lutava pela vida em vida. Vida alheia, vida tua.


Vida minha? Tudo mudo. Vida muda...


À Vivian Pisaneschi Cruz
(27 de outubro de 1982 - 24 de agosto de 2011)

Historinha antes de dormir...

Era uma vez, uma garotinha muito calma, meiga, sensível, um anjo de candura, que vivia numa cidade encantada, à beira-mar, onde conversava, envolta em suas finas sedas, com peixinhos, golfinhos e passarinhos, num cotidiano ameno de nuvens algodão-doce no celeste azul do céu.       


Chamava-se Vitória, uma alusão de seus pais à beleza daquela, a régia, que flutua sobre as plácidas águas doces...


Um dia, numa aleatória e simples conversa com os seres inanimados de seu mundo, teve a ideia brilhante de convidar um velho amiguinho, de uma terra muito muito distante, a participar de uma festa que haveria em seu quintal.


O garotinho em questão, Sequoio, entretido em sua célebre resistência a pairar assonante no paraíso, revestido de sua negação inveterada a levemente se entregar aos copos cósmicos fermentados de mel, não aceitou o convite da nobre criatura que lhe clamava a ilustre presença.


Vitória, então, decidida a cortar um mal pela raiz, abre o baú da perdição, já empoeirado no sótão, e retira dali, depois de ter-se deparado com uma infinidade de códigos mágicos e combinações secretas, o punhal milenar da desgraça. Reluzia em suas mãos o aparato, grande e afiado, entrando-lhe nas pupilas o cintilar de uma promissora vingança.


Neste momento, a doce garota despertava sentimentos adormecidos que nunca antes sentira: ira, ódio, rubros maus de alma. Bem diziam os antepassados que, ao tocar no referido punhal, qualquer ser encantado estaria tentado a usá-lo em prol do demoníaco.
Vitória levou sua descoberta ao quarto e fitou-a atentamente a noite inteira, planejando mil maneiras de perseverar em sua magistral tarefa de transformar Sequoio em seiva bruta.


Já não era mais a mesma, seus olhos rutilavam a vermelhidão do sangue roubado do corpo, que empalidecia, para concentrar no cérebro soberano a enorme missão.


O mundo girava e qualquer possiblidade do encantamento natural, de nobres sentimentos, era refreada pelo poder demoníaco que o punhal lhe exercia.


Na tarde seguinte, Vitória recebeu uma visita inesperada do garotinho Sequoio, que lhe insistia o perdão por sua ausência. A garota dissimulou complacência. Conversaram durante algumas horas sobre diversos assuntos, aos quais não dava mais importância alguma, absorvida pelo grande infortúnio que agora era capaz de produzir.


Ao despedir-se, Vitória deu-lhe um forte abraço, afagou-lhe os cabelos com a mão esquerda, olhou-o fixamente e disse:


- Este é o resultado de seus brios!


De sua mão direita lançava, no mesmo instante, a arma despudorada, que invadiu-lhe o esterno e atingiu-lhe o coração.


As únicas águas sob Régia eram agora espessas poças sanguinolentas do frescor da morte de Sequoio. O mesmo frescor sentido por ela na manhã seguinte, em seu cotidiano ameno de nuvens algodão-doce no celeste azul do céu...

(29/07/2011) Dedicado ao amigo R. Madeira.