(Robert Frost)
Uma vez mais, lugar incomum este o da solidão em que me encontro, ao qual pertenço nos últimos dias. No hospital, acompanhando o processo de morte de minha irmã, tenho pensado e sentido milhares de coisas. É o exaurir de forças, a sucção irrefreável de impressões e sensações deste eterno terno ser admirável que padece a cada minuto.
Então, despede-te, mundo! Faz valer esta história, busca o que ocorreu de mais precioso no passado, agarra-te em lembranças. O que vem pela frente é difícil, lamentável. A ausência de minha irmã significa a afirmação de uma solidão jamais sentida.
Fomos criadas para sermos amigas, confidentes. A frase que soava das vozes supremas era "Quando papai e mamãe forem embora, vocês terão uma a outra"... Meu misterioso e covarde destino, por que inverteste a ordem? Por que me tiras esta companheira de vida tão precocemente? Torno-me Quixote sem meu Sancho. Quem me trará à realidade de minhas aventuras? Quem me abrirá os olhos e me fará perceber que aquele imenso gigante não passava de um moinho? Só, só...
Vejo teu corpo, tuas veias, teu coração e respiração; tudo agindo tão lentamente agora. Teu olhar é longínquo, não mais penetrante, altivo e atento como costumava ser. Tua voz tende ao silêncio, com a rouquidão de tua alma em espera, em processo. Fecho os olhos. Posso detalhar teu corpo, tuas pintas, gestos e expressões. Ouço tua voz. Oh, sim, sinto teu cheiro, o amor no teu abraço... Com fervor brindo teu ódio, presente no olhar de quem apenas lutava pela vida em vida. Vida alheia, vida tua.
Vida minha? Tudo mudo. Vida muda...
À Vivian Pisaneschi Cruz
(27 de outubro de 1982 - 24 de agosto de 2011)


